O processo de construção de uma política nacional bioenergética é a mais complexa mudança econômica existente no Brasil contemporâneo. Talvez mesmo superior à própria transformação do país de primário-exportador a industrial.
A metamorfose do Brasil de economia primário-exportadora a industrial em nada, ou muito pouco, influiu na dinâmica de desenvolvimento do capitalismo mundial. Nos transformamos e nos inserimos numa dinâmica mundial não mais como simples exportadores de matérias primas, em sua maioria de base alimentar. A partir dos anos 30 do século passado e, sobretudo, na segunda metade do século em diante, nos industrializamos, mas sem mudar em nada o cenário mundial com a nossa “entrada no clube” dos países (hoje) ditos emergentes. Simplesmente nossa industrialização se deu como que uma replicação em menor escala do que existia no mundo. Nada de novo e, muito menos, que interferisse de forma minimamente significativa na ordem mundial do capitalismo.
Como nenhuma grande transformação surge do nada, as crises mundiais do petróleo na década de 1970 durante o Governo Geisel, levaram o Brasil a agir. O petróleo dava sinais de escassez e nossos cientistas viram no Sol, esse imenso reator de fusão nuclear, a solução para o ocaso dos combustíveis fósseis. Nossos chefes políticos tiveram a vontade de potência e pelo Decreto Nº 76.593 de 14 de novembro de 1975 instituíram o Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool).
Quase 35 anos se passaram. O etanol que fizemos chegar às bombas de combustível virou notícia mundial. O biodiesel passou a ser considerado a “versão oleaginosa do etanol”. A era dos biocarburantes chegou para ficar. Com ela novas complexidades. De maneira geral elas existem em função das áreas em que é possível se conseguir produzir combustível a partir da biomassa. Essas áreas são infinitamente superiores as usadas na era do petróleo. Por isso mesmo, provavelmente, a questão territorial (no que concerne a conquista e manutenção de territórios por potências econômicas e militares) pode se tornar ainda mais forte, de uma virulência até hoje ainda não vista. E nesse caso, o Norte do Brasil é o grande alvo. Nele a Amazônia, gigantesca reserva de terra, sol e água (sem falar nas outras riquezas simplesmente ainda não exploradas). A tabela abaixo é clara:
O nosso território amazônico, no atual caminho da completa cegueira no tocante à questão bioenergética como política de Estado se encaminha a passos largos para sair do mapa do Brasil. Aqueles que conhecem a história do petróleo sabem que essa é uma realidade mais do que plausível. A guerra pelo petróleo se transmutará em guerra de territórios aptos à produção de biocarburantes, ademais, capazes de gerar grandes fluxos migratórios. Em suma, a Região Norte tem sido apresentada no imaginário nacional e mundial como sendo um imenso jardim tropical, uma espécie de Éden planetário essencial para barrar um desmascarado (mas não desativado como discurso) aquecimento global. O Norte não é um Éden. O Norte é uma área absolutamente pobre e inóspita. Um vazio de tudo para se existir, não colonizado. Se tornará algo na mão de ágeis colonizadores que construirão riquezas de proporções difíceis de dimensionar. A questão é saber quem o colonizará. Colonizar é dispendioso. A era dos biocarburantes traz a rentabilidade necessária para a tarefa.


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