A última visita do então presidente Bush ao Brasil teve fins absolutamente claros, quais sejam, os de estabelecer as bases de uma atuação conjunta entre os dois países no cenário bioenergético que se inicia. Nesse cenário, fica evidente o papel do Brasil como espaço privilegiado para a localização de grandes plantas produtivas, muito embora tenha se firmado um protocolo bilateral em que países da América do Sul, Central e do Caribe serão escolhidos após estudos de viabilidade econômica para implantação de unidades agroenergéticas.
A primeira questão que está colocada é que os EUA não possuem território para produção de etanol (e futuramente biodiesel) nas proporções desejadas para essa nova revolução energética e as necessidades do seu próprio mercado bem como, futuramente, do mercado mundial. Portanto, os EUA já começam a internacionalizar a indústria do etanol e o Brasil é central para esse processo por motivos tecnológicos, geopolíticos, empresariais e territoriais.
O Brasil possui a tecnologia da produção de etanol de cana de açúcar com alta produtividade; além de ser um país de grandes dimensões com liderança no continente e no próprio caribe neutraliza o presidente venezuelano Hugo Chavez e sua proposta (essencialmente falaciosa) de uma política de integração energética com os países produtores de petróleo e gás, sendo incluído aí, também, os biocombustíveis; joint ventures ou mera aquisição de empresas brasileiras serão feitas em grande quantidade, possibilitando aos EUA a apropriação de know how para atuação produtiva planetária; por fim o território nacional, área principal para a produção de biocombustíveis do planeta, é objeto dos desejos mais sonhados, sendo o governo brasileiro cortejado para aproximações futuras de maior relevância, pois por mais que os EUA busquem áreas para a produção de biocombustíveis jamais poderão dispor de um território tão grande e unificado como o brasileiro e, nesse contexto, necessariamente (ao menos hoje) tem que propor parceria.
O problema das questões acima arroladas é que nós inventamos a indústria dos biocombustíveis e já não somos mais os líderes mundiais da produção nem de etanol. Devemos lembrar que os EUA são o maior produtor de soja do mundo (potencializando-se como um futuro líder mundial no fabrico do diesel de óleo vegetal). Além disso, a Alemanha é a maior produtora mundial de biodiesel (extraindo óleo de nabo forrageiro e comprando óleo de palma) possuindo, inclusive, postos distribuindo B100 (utilização de 100% de óleo vegetal para a produção de biodiesel).
Na verdade não temos uma política interna definida para a produção de biocombustíveis (deixando inclusive o Norte e o Nordeste fora desse processo). Para piorar as coisas, um país radicalmente pragmático e com muito dinheiro como os EUA passa a ser o formulador das propostas de política produtiva e comercial mundial para a área em tela (inclusive as duas proposições principais que são a formatação de um mercado mundial e de uma entidade nos moldes da OPEP para o controle mundial da produção e dos preços nesse novo setor), quando ao Brasil caberia esse papel.
É preciso que se tome um posicionamento mais pró-ativo sobre as questões aqui tratadas. Caso isso não ocorra seremos conduzidos pelo processo e, logo-logo, não seremos mais nada (ou muito pouco) em termos de peso na condução da política mundial bioenergética, passando de locomotiva a vagão de terceira classe da grande potência norte-americana.

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